Autismo: sensações, emoções e comunicação - Relato de Vivência


Dia desses aconteceu algo interessante aqui em casa.

Fizemos um bolo, e como nosso forno está ruim acabou queimando um pouquinho no fundo.

André sentou para almoçar e eu deixei a fôrma em cima da mesa próxima a ele, enquanto arrumava a pia para deixá-la de molho.

Autismo: sensações, emoções e comunicação - Relato de Vivência
Pra todos verem: Foto colorida, com fundo vermelho onde uma menina com cabelos claros amarrados de ambos os lados, vestida com uma camisa branca estampada de estrelas azuis, segura  com a mão esquerda em frente ao rosto uma máscara amarela com expressão de sorriso e com a  mão direita segura outra máscara com expressão de brava. Abaixo a esquerda o logotipo do blog escrito Atipicamente Autista. 


Poucos minutos depois ele arrastou a cadeira pra trás com uma expressão um pouco apavorada e com a voz levemente alterada falou: “Mãe, que cheiro ruim! Esse cheiro arde meu nariz!”

Parei o que estava fazendo e pedi pra ele repetir.

- Esse cheiro entra no meu nariz queimando, que sensação horrível, me dá agonia! – Disse ele já bem incomodado.

Imediatamente eu tirei a fôrma de perto dele e ficou tudo bem, ele seguiu fazendo a refeição.

Alguns minutos depois eu perguntei se estava tudo bem, ele afirmou que sim e continuou comendo.

Então eu perguntei se ele tinha noção da importância do que ele fez, obviamente ele não entendeu nada, e segui explicando.

- André, conheço autistas que entram em crise só por sentirem o cheiro de algo, pois gera uma sobrecarga sensorial.

- E o que é isso?

- Sobrecarga sensorial é quando um dos seus sentidos fica sobrecarregado, ou seja, recebe uma carga de informação maior do que o seu organismo pode processar naquele momento.

Alguns autistas entram em crise porque não conseguem comunicar o que estão sentindo, outros sequer conseguem entender.

Você conseguiu perceber, reconhecer, entender e comunicar descrevendo o que estava te incomodando, parece algo simples mas é importante.

Se eu não tivesse tirando a bandeja de perto de você, o que você faria?

- Eu ia sair de perto.

- Pronto! Só que tem muitos autistas que não conseguem sequer fazer isso, gritam, choram, se jogam no chão, e não é por birra ou falta de educação, é crise, não conseguem se expressar da maneira que as pessoas entendam para ajudá-lo, e reagem da forma que conseguem, pois é algo que foge do controle.

- Então o que eu fiz é importante?

- Sim, você  não só percebeu e entendeu como comunicou, relatando inclusive a sensação de dor (queimação).

- Isso é bom, né?

- Com certeza!

Continuou comendo e saiu.

Depois fiquei refletindo.

O quão importante foi e é falar para ele sobre a sua condição, explicar como o organismo dele reage a estímulos, mudanças, sentimentos, sensações. (Veja em Devo contar ao meu filho que ele é autista?)

Vejo o quanto ele tem amadurecido, a consciência e o autoconhecimento fazem com que ele se expresse cada vez melhor e vá buscando maneiras de reagir e se expressar em situações que causem incômodo.

Quando mais novo, antes mesmo de ter o diagnóstico, ele tinha rompantes de agressividade, e mesmo após o diagnóstico eles ainda aconteciam.

Sempre que possível eu explico a ele sobre autismo, sobre como ele sente e vivencia as coisas, as situações, e hoje já com mais maturidade, entendimento e consciente, percebo que grande diferença faz.

Fico pensando que quando tudo era recente, e quando eu ainda não tinha as informações e conhecimento que tenho hoje, como foi pra ele? Quantas vezes ele teve uma crise “do nada” por conta do cheiro de alguma coisa? Nunca é do nada, nunca é.

O cheiro nunca nos causou problemas, não que eu me lembre, as questões sensoriais dele são mais ligadas a audição e ao tato, mas é bem possível que em algum momento o cheiro tenha lhe causado desconforto e ele não tenha conseguido se expressar.

Por isso reforço a importância de conscientizar, de falar para um autista sobre a sua condição, e usar de todas as ferramentas disponíveis e possíveis para que ele entenda as sensações, emoções, maneiras de se expressar, de se comunicar, seja de forma verbal ou não, pois isso o ajuda a sentir-se mais seguro e a buscar formas de lidar com suas próprias questões amenizando cada vez mais o impacto que essas situações podem causar.

Eli Nobrega - AtipicaMente Autista



1 Comentários

  1. Muito bom Eli. Vocês estão de parabéns. Como gosto dos seus relatos, obrigada por compartilhar. Por favor continue 👏🏼👏🏼👏🏼

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